O Edifício Guarani (1936-1942), projeto do arquiteto Rino Levi, foi construído no centro histórico de São Paulo, descortinando o Parque Dom Pedro II. Na década de 1930, o parque era um bonito jardim público, com área quase equivalente à da colina histórica.

Trecho do Mapeamento 1930 – SARA da Cidade se São Paulo http://geosampa.prefeitura.sp.gov.br/. Em vermelho, o terreno ocupado pelo edifício Guarany. Em amarelo, aproximadamente, a colina histórica.

Cartão Postal: Parque Dom Pedro II e o Zepelin. Foto: autor desconhecido

O folheto de propaganda para o lançamento do edifício Guarany destacava, naturalmente, a qualidade da localização:

“Aos nossos pés, o parque majestoso, reconfortador e restaurador com o tapete verde ondulante das copas de árvores amigas que sombreiam gramados infindáveis. […] Uma residência para se viver a vida […], no centro da cidade-dínamo, e ao mesmo tempo tão longe dele!”

Edifício Guarany, década de 1940. Sentado na grama do parque, o arquiteto Rino Levi. Acervo digital Rino Levi

Em apenas três décadas, o Edifício Guarany, se viu diante de um caótico e medonho nó viário, responsabilidade de um poder público que viu o jardim do Parque Dom Pedro como um pano de fundo para o traçado de avenidas e viadutos destinados a aumentar o fluxo de automóveis. A investida contra o parque começou com o traçado do primeiro anel de avenidas perimetral ao centro (https://www.oespacopublico.com.br/2019/11/18/a-primeira-perimetral-a-primazia-dos-automoveis-no-tracado-urbano/).

Bonde na av. Rangel Pestana sobre o Parque Dom Pedro II (trecho da primeira perimetral). Atrás do bonde, o edifício Guarany. Década de 1950, autor desconhecido.

Com o título de “Parque D. Pedro será urbanizado”, uma nota no Estadão de 04 de junho de 1968, informa as obras que integram a dita urbanização:

“Cinco viadutos no Parque D. Pedro II, pavimentação das pistas ao longo do canal do Tamanduateí, de vias auxiliares e áreas de estacionamento são as principais obras que a Prefeitura executará naquele logradouro público, modificando totalmente a fisionomia do parque.”

Para o desenho dos viadutos, o então prefeito Faria Lima aprovou o projeto apresentado pelo escritório Croce, Aflalo & Gasperini Arquitetos. Pelo nível do escritório responsável, só podemos entender que as intenções não eram más. Porém, fruto de uma época tomada pela lógica rodoviarista.

Após os viadutos. Imagem revista Veja 1971, republicada em http://www.saopauloantiga.com.br/sao-paulo-em-1971/

Trecho da Ortofoto 2004 -MDC http://geosampa.prefeitura.sp.gov.br/. Em vermelho, o terreno ocupado pelo edifício Guarany.

Dois dos novos viadutos do Parque ficaram vizinhos ao edifício Guarany, são grandes viadutos em curva no eixo da Rangel Pestana, viadutos com a função de um trevo viário, destinados a evitar cruzamentos em nível e propiciar ligações diretas com vias transversais. Viadutos construídos para o automóvel transitar em velocidade, com grandes guard-rails separando a pista de carros da exígua via de pedestres.  O pedestre foi ignorado, as curvas alongaram os trajetos e obliteraram o destino, o parque foi fragmentado em ilhas isoladas por eixos de trânsito.

Em primeiro plano o leito do viaduto Vinte e Cinco de Março e o edifício Guarany. Foto FMM, junho de 2017

A perda de qualidade na situação urbana do edifício Guarany espelha a perda de qualidade urbana sofrida pela cidade de São Paulo, ao ter um grande parque central transformado em nó viário. A degradação gerada por grandes viadutos viários no espaço urbano talvez não fosse evidente na época. Mas não tardou a se fazer notar.

Avenida do Estado e rio Tamanduateí. Sobre o rio, em primeiro plano, a ponte Avenida Mercúrio (primeira perimetral) e além o viaduto Diário Popular. No fundo, à esquerda, o edifício Guarany. Foto: FMM, junho de 2019

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